Semana santa, Via Sacra, e meu livro

Essa semana, o dia de hoje principalmente, tem um significado especial para mim. Tem gosto familiar, lembranças boas, a união dos que estavam longe, o reencontro, os ritos, a encenação, a tradição, família unida, amigos unidos, eventuais brigas, eventuais reconciliações, e um livro. 

A tradição da semana santa foi algo sempre presente na minha vida, com uma família bastante religiosa fui criada sobre os preceitos da igreja católica. Mas, não obstante, a ocasião não é somente sobre religião, tem um tom saudoso para minha família. O aconchego da reunião familiar, cheio de lembranças sobre a matriarca, causos contados de uma época passada, a meninice, a infância, um falando por cima do outro, contando como eram arteiros, mas unidos. Porém, infelizmente dessa vez, foi preciso se fazer diferente, senti-se esse desconsolo da separação no ar, as lembranças trocadas pelo celular não se equivalem.

Não é a mesma coisa sem a cera da vela queimando os dedos misturada a fofocas no meio da Via Sacra, você viu sicrano? você viu que fulano tá namorando com joana? que terminaram? que voltaram? que ta gravida? pois é largou a faculdade, que roupa feia! E o cântico seguindo, pela virgem dolorosa… perdoai-me meu Jesus… 

É realmente uma data muito especial.

Depois que comecei a faculdade, saindo de casa e indo morar longe, a semana santa consistia nisso, um reencontro caloroso. O colocar as novidades em dia, voltar a costumes que somente naquele grupo familiar se tem liberdade, a nostalgia das nostalgias. A família se reunindo, as comidas feitas, a confecção dos ovos de páscoa; que acabava sobrando somente para mim, tentando milagrosamente fazer com que o chocolate desse para todos, incluindo familiares e amigos, aí de mim se faltasse alguém.

No dia de hoje, sinto verdadeiramente falta dessa confusão.

Quando voltei para casa, voltando para ficar, perdida em meio às dúvidas, a ansiedade do que será, recomeçando a escrever sem saber ao certo o que estava fazendo, procurando exaustivamente um rumo, uma luz, sem nunca achar. Foi em meio a conversas abafadas iluminadas por velas que Vale me veio, apareceu para mim ao som de a morrer crucificado, teu Jesus é condenado… me mostrou o que lhe tinha acontecido, e eu soube naquele instante que precisava lhe dar voz. A história dela, precisava contar. 

Então hoje, fazendo exatamente um ano, me recordo perfeitamente do momento em que decidi escrever um livro, sem ter ideia de como seria; do quão difícil seria! Apenas tendo a consciência de que precisava fazer, de que devia, a mim e a Vale a tentativa. De sentir uma coceira na ponta dos dedos, dela passar somente depois de transferir aquilo para palavras. De saber que só iria sossegar quando pronto, quando Vale recebesse justiça, a chance de ser ouvida. Fui em frente. Um ano de altos e baixos, de ir de cara com ruas sem saídas. Da procrastinação me exaurir. Não desisti, e isso é o que mais importa. 

Com a procrastinação em altos níveis essa semana, sem casa cheia, sem cheiro de chocolate na cozinha, sem o caminhar a luz de velas pela noite, sem vozes misturadas a um shii! sem o raio da criatividade me acertar. Fico apenas com o aperto nostálgico de velhos dias melhores, um livro inacabado, e um sem fim de suspiros saudosos. 

P.S: Ah, sobre a foto, sim, participei da encenação da Paixão de Cristo; três ou quatro anos consecutivos!

2 comentários em “Semana santa, Via Sacra, e meu livro

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